A peça “A estudante e o sr. Henrique” estreia-se na quinta-feira no Teatro Villaret

A peça "A estudante e o sr. Henrique" estreia-se na quinta-feira no Teatro Villaret
A peça “A estudante e o sr. Henrique” estreia-se na quinta-feira no Teatro Villaret

Um septuagenário viúvo e mal-humorado que se vê forçado a alugar um quarto da casa onde mora é a personagem principal de “A estudante e o sr. Henrique”, que se estreia na quinta-feira no Teatro Villaret, em Lisboa.

Após uma indisposição do sr. Henrique, personificado por José Pedro Gomes, o filho Paulo (Aldo Lima) considera que o pai não tem condições para viver sozinho na casa que habita, em Lisboa, convencendo-o a alugar um quarto evitando assim que seja colocado num lar.

Rezingão, mal-humorado e com uma mentalidade “até um pouso fascista”, nas palavras do encenador Ricardo Neves-Neves, o sr. Henrique acaba por ceder às condições impostas pelo filho, aceitando repartir a sua casa com uma jovem desconhecida.

Uma estudante de gestão, bem-disposta e de têmpera, Constança (Inês Sá Frias), surge então na vida do sr. Henrique, sendo quase repelida por este logo no momento em que lhe bate à porta de casa, para conhecer o quarto.

Não sem muitas renitências nem sem desdenhar sobre o quarto que Constança acaba por alugar – sublinhando que o que antes fora uma alcatifa a forrar o chão é agora um tapete esfarrapado que só serve para um cão que não seja muito exigente -, o sr. Henrique acaba, porém, por lhe alugar a assoalhada.

Com um ódio visceral pela nora, Vitória (Inês Castel-Branco), Henrique aproveita a situação para impor condições à estudante: cede-lhe o quarto de forma gratuita, por um período experimental de seis meses, desde que Constança esteja disposta a seduzir o filho Paulo, de modo a terminar com o casamento deste.

A jovem acaba por ceder, tentando com insistência ir seduzindo Paulo, o que agrada a Henrique, sem que Paulo lhe alimente qualquer esperança e acabando mesmo por reforçar a união entre este e Vitória.

À medida que a ação se vai desenrolando, na sala de Henrique, Constança acaba por se dar a conhecer e por confidenciar a Henrique que é estudante de gestão por imposição familiar, porque o que gostava mesmo era de estudar música.

Um piano em casa de Henrique, que este não deixa que ninguém lhe toque para não lhe trazer memórias da mulher, acaba por ser fundamental no desenrolar da ação da peça e da alteração de personalidade que Henrique vai demonstrando.

“Uma comédia sobre a fragilidade dos laços familiares, a solidão dos mais idosos, mas também dos compromissos que fazemos com a nossa consciência para lidar com a distância que separa os nossos sonhos de vida com o que nos vai acontecendo”, disse o encenador Ricardo Neves-Neves à agência Lusa, no final de um ensaio parcial do espetáculo.

A importância da convivência entre as gerações, que a sociedade moderna tem vindo a descuidar, é outro dos pontos em foco no texto e ao qual convém dar importância, já que “é fundamental percebermos que todos temos a ganhar com a ausência de distância entre gerações”, acrescentou.

Adaptado do texto do dramaturgo, encenador e realizador de cinema francês Ivan Calbérac (1970), “A estudante e o sr. Henrique” mostra-nos ainda como uma personalidade “rígida, impaciente e quase irascível”, como era Henrique, acaba por dar origem a uma “pessoa mais aberta, com sentimentos e capaz de os demonstrar” em resultado do convívio diário com uma pessoa mais jovem, observou ainda o encenador.

Produzido pela Força de Produção, o espetáculo estreia-se na quinta-feira, no Teatro Villaret, em Lisboa, depois de um ensaio solidário, hoje, cuja receita reverte na íntegra para a SOS Voz Amiga.

Em França, o texto original de Ivan Calbérac estreou-se em palco, em 2012, com encenação de José Paul. Três anos depois, o dramaturgo assinou a realização de um filme a partir do mesmo texto.

Com cenário de Stéphane Alberto, figurinos de Dino Alves e música de Noiserv, a peça tem desenho de luz de Luís Duarte.

Após uma “grande” temporada no Villaret, o espetáculo fará uma digressão por várias localidades portuguesas, referiu ainda Ricardo Neves-Neves.

Bordeus,02 fev 2022 (Lusa) -RL33