Jovem português persegue o sonho da F1 com o carimbo… de Alonso

Foto: D.R-Guilherme Oliveira

Ocaminho até à Fórmula 1 pode ser longo, muito longo. No entanto, é preciso dar os primeiros passos, e são precisamente esses passos que Guilherme Oliveira, jovem piloto natural do Porto, está a dar.

Aos 16 anos, Guilherme juntou-se à conhecida equipa DriveX, que pertence ao bicampeão do mundo de Fórmula 1, Fernando Alonso, e, antes de se estrear no campeonato de Fórmula 4, em Espanha, este fim de semana, falou em exclusivo com o Desporto ao Minuto.

Depois de conquistar inúmeros títulos no karting nacional e internacional, Guilherme Oliveira deu, agora, o salto para os monolugares. No ano passado, o jovem de 16 anos fez uma corrida isolada de Fórmula 4 e, para surpresa de todos, inclusive do próprio, terminou no quarto lugar. Um resultado que abre perspetivas para a primeira época completa, este ano.

O sonho de chegar à Fórmula 1 juntou-se ao de correr com as cores do seu ídolo, Fernando Alonso, e Guilherme Oliveira não podia estar mais entusiasmado com este novo desafio na carreira. Entre os estudos e o objetivo de se tornar piloto profissional, motivação e vontade são o seu verdadeiro combustível

Claro que sinto a responsabilidade de representar um piloto tão conhecido e respeitado. Tenho de tentar dar os melhores resultados à equipa e agradecer a confiança

Começaste a competir muito cedo, mas quando foi a primeira vez que conduziste um kart?

Foi no kartódromo de Espinho, em 2012 ou 2013, por aí. Passou rapidamente de um hobbie para um vício, e o meu pai passou-me a levar lá muitas vezes para eu ir andar de kart. Foi assim que a paixão pelo automobilismo se acendeu.

E como é o karting passou de um hobbie para a competição?

Foi tudo muito rápido, mas, no primeiro ano, não pude logo competir porque tinha excesso de peso para a classe que era indicada para a minha idade. Tive de fazer um ano sabático, e só então é que comecei a competir nas competições nacionais, com 10 anos.

Como é que foi o início? Sentiste desde logo que tinhas um jeito natural para correr?

Ao início, nem via as corridas com necessidade de ganhar. Gostava apenas de praticar a modalidade. Só, talvez, passando um ano é que comecei a ver que tinha potencial e as coisas começaram a desenrolar-se.

Competições em Portugal, em Espanha, na Europa… Como é que tens conciliado tudo isto com os estudos? 

Nesta fase, para já, está tudo controlado, mas claro que é sempre um grande esforço. Nós, pilotos, todo o tempo que temos ao final de semana é gasto para corridas ou treinos. Tenho também alguma dificuldade em gerir o tempo para o ginásio e preparação física, que é, sem dúvida, um elemento importante para o mundo do automobilismo. Contudo, ao longo destes cinco anos, acho que tenho conciliado tudo bem, conto também com a ajuda de uma explicadora em casa para rever a matéria que vai sendo dada. Para já, está tudo a correr bem.

Guilherme Oliveira num dos testes antes do início da temporada de F4 de 2021© Reprodução

Vais entrar para um grande desafio, talvez o maior até agora. Como é que te tens preparado para o início da temporada da Fórmula 4 espanhola?

Antes de mais, tenho de agradecer à equipa DriveX, a equipa do Fernando Alonso, que me ajudou a dar este salto. Sem eles não seria possível. E também à Synergy, empresa de acompanhamento de pilotos do Duarte Félix da Costa e do Gonçalo Gomes. Tenho vindo a preparar-me tanto a nível físico, como mental. Tenho feito uma pré-época, já fomos à Bélgica, temos treinado muito em Espanha. A nível físico, tenho treinado quatro vezes por semana, com cada treino a durar mais ou menos duas horas e meia, e, a nível alimentar, também estou a ser acompanhado por um nutricionista.

Não estás a deixar nada ao acaso.

Nada, nada!

Quais são as expectativas para esta temporada, tuas e a da DriveX, que conquistou o campeonato em 2019?

Este ano será diferente para a Fórmula 4 de Espanha, é um ano de mudança, onde o nível competitivo deu um salto astronómico. Entraram equipas como a Campos Racing, a Teo Martín Motorsport, há também a MP Motorsport, que é a nossa concorrente direta, e que faz Fórmula 2 e Fórmula 3. Vai ser um ano bastante complicado e estamos ainda na expectativa, mas estamos confiantes em obter bons resultados.

Falaste na MP Motorsport, onde há precisamente outro jovem português…

Sim! O Manuel Espírito Santo, que já vai para o segundo ano de Fórmula 4.

Como é que olhas para essa rivalidade. É um confronto mais especial para vocês?

Claro. No fundo, nem é uma grande rivalidade, porque representamos o mesmo país e queremos dar os melhores resultados a Portugal. Tanto ele como eu, tentamos sempre que a bandeira portuguesa possa ir o mais alto possível. Em pista, como é óbvio, espero sempre ficar à frente, mas o Manuel tem estado muito forte nos testes coletivos e já leva mais tempo de Fórmula 4 que eu. Vamos ver como corre.

 O sonho é chegar à F1, mas o principal objetivo é tornar-me piloto profissional nos próximos anosQuais são as maiores dificuldades que esperas encontrar neste teu primeiro ano na Fórmula 4?

A minha experiência de F4 ainda é muito escassa. Tenho a desvantagem de ter muito menos tempo no carro do que os outros pilotos. Acho que isso poderá colocar-me algumas dificuldades por não ter tanta experiência quanto os restantes. Sou ‘rookie’, só fiz uma corrida o ano passado em Jarama, e desde aí que tenho estado parado até começar a minha pré-época, há cerca de três semanas.

E essa corrida isolada que fizeste de Fórmula 4 até correu bem, não foi?

Acabei em 4.º lugar. Foi uma surpresa para todos, tanto para a DriveX como para mim. Não estava à espera, e, se puder repetir agora já em Spa um resultado parecido, era muito bom. Vão estar presentes 25 ou 26 carros no campeonato, por isso seria já um bom resultado para começar.

Conduzir um kart e um monolugar não é, de todo, parecido. Que diferenças encontraste?

O que mais senti foi a diferença de profissionalismo das equipas, são estruturas muito maiores, a informação que nos transmitem é muito maior, o grau de exigência também é muito maior e tudo é muito mais pormenorizado, como é o caso da telemetria, da comunicação com o engenheiro, da comunicação que tenho de ter com a equipa. É um mundo muito maior em comparação ao karting.

Guilherme Oliveira numa vitória ainda no karting © Reprodução

E em termos técnicos, sentiste muita diferença?

Sim. A condução é parecida, mas há muita coisa que difere. Por exemplo, o pique no travão tem de ser muito maior. Temos de exercer uma força muito maior para conseguir parar o carro. Os botões que existem no display do carro, os arranques também são diferentes com recurso à embraiagem. Existem alguns procedimentos diferentes, nada muito complicado, mas que difere de conduzir um kart.

O facto de representares a equipa da DriveX, que está ligada a um nome muito forte do automobilismo que é o Fernando Alonso, dá-te motivação, mas também uma responsabilidade acrescida?

Isso acaba por ser algo engraçado porque, desde que comecei a correr no karting, utilizei o chassis do Fernando Alonso. Acabei por dar o salto para os Fórmulas na DriveX, equipa do Fernando Alonso, e claro que sinto a responsabilidade de representar um piloto tão conhecido e respeitado. Tenho de tentar dar os melhores resultados à equipa e agradecer a confiança.

Apesar de ainda não teres nascido quando ele se tornou pela primeira vez campeão do mundo de Fórmula 1, o Fernando Alonso acaba por ser um exemplo para ti enquanto piloto?

O Alonso sempre foi o meu ídolo desde pequeno. Comecei a ver F1 em 2014, quando ele ainda estava na Ferrari. Sempre foi a minha equipa favorita e, por isso, sempre o apoiei. Foi mesmo um sonho de criança poder correr na equipa dele.

Por falar em Fórmula 1. O sonho é chegar lá, certo?

Claro, acho que o sonho de qualquer piloto é chegar à Fórmula 1. No entanto, como todos sabem, só existem 20 lugares num mundo onde existem milhares de pilotos extremamente talentosos. O sonho é lá chegar, mas o principal objetivo é tornar-me piloto profissional nos próximos anos. É isso que mais almejo.

E se te perguntar onde te vês daqui a cinco anos…

É uma pergunta muito complicada, porque o meu futuro vai depender destes próximos dois anos nas Fórmulas juniores. Mas gostava muito de me ver correr no Campeonato do Mundo de Resistência, a representar uma marca de GT’s ou, quem sabe, estar ligado a uma escola de pilotos como a Red Bull, a Alpine ou até mesmo a Ferrari para ter hipóteses de correr na Fórmula 2 para abrir portas para a Fórmula 1. Embora saiba que isso já sejam sonhos muitos altos (risos).

Além de Fernando Alonso, Guilherme Oliveira confessou que um dos seus pilotos de F1 preferidos é Pierre Gasly© Reprodução

Fonte: Noticias ao Minuto